Diário de corrida descalço

Diário de corrida descalço

Por Daniel
seg, 12/12/2011 - Atualizado 1 ano atrás
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O objetivo deste artigo é registrar as minhas experiências com corridas descalço.

Corro a mais de 16 anos e, durante 4 meses sofri com uma dor na lateral do joelho diagnosticada pela internet (e posteriormente pelo ortopedista) como a síndrome da banda iliotibial. Esta doença não é grave, não o deixa paralítico ou te leva para a mesa de cirurgia porém pode interromper seus treinos por um bom tempo.

Enquanto me recuperava, decidi aproveitar os doloridos e curtos treinos para melhorar meu estilo e postura com o objetivo de aos poucos aumentar a velocidade e reduzir o consumo de energia. Foi ai que, através de leitura de textos técnicos e de livros descobri uma corrente de atletas que experimentaram melhorias significativas em seu desempenho bem como redução das lesões através da corrida sem calçados.

A teoria por trás desta prática baseia-se na história da espécie humana, durante centenas de milhares de anos nossos pés evoluíram da melhor forma possível para sustentar o corpo de forma ereta e permitir que atividades altamente dependentes da forma física, como a caça, pudessem ser realizadas. O pé humano conta com uma grande concentração de terminações nervosas e ossos, se comparado a outras partes do corpo. Os calçados amortecidos utilizados a partir da década de 70 para corridas alteram o posicionamento natural dos pés no chão além de "isolar" as terminações nervosas que, através da dor, naturalmente corrigem as passadas. Para maiores informações sobre estas teorias recomendo a visita ao site do pesquisador Daniel E. Lieberman.

Evidentemente a corrida descalço tem seus riscos, além de sobrecarregar a estrutura física não acostumada aos novos esforços, ato que pode levar a fraturas por estresse, é possível acabar o percurso com um prego ou um pedaço de vidro atravessado no pé. Para variar, eu nem me importava com estes riscos e decidi tentar. Um diário da evolução será apresentado abaixo.

Dia 1 - Uma experiência (9/10/2010)

Depois de um curto treino de 30min de aceleração e desaceleração, tirei meus tênis e corri nas ruas das proximidades do parque Toronto por uma distância de cerca de 500m. A sensação não foi das melhores. A banda iliotibial já estava um pouco dolorida e qualquer pedrinha do asfalto parecia uma agulha perfurando a minha macia pele do pé.


Não tive nenhum problema com dores musculares e ao, final da experiência, acabei com doloridas feridas de atrito no terceiro dedo dos dois pés e alguns pequenos cortes na base do pé.

Dia 2 - Adaptação (16/10/2010)

Nesta segunda tentativa, uma semana após a primeira, retirei os calçados após 7km de corrida no asfalto. Corri sem tênis por cerca de 1km ao redor do parque Severo Gomes.


Ao longo do percurso, senti outros grupos musculares da perna em ação, principalmente os da frente. Embora durante os 7km estivesse sentindo a maldita banda iliotibial, durante a corrida descalço parece que a mesma diminuiu de intensidade. As pedrinhas também foram menos sentidas e os dedos que antes sangraram, hoje só descascaram.


Gostei da experiência. Os outros corredores e visitantes do parque olharam torto enquanto corria descalço, provavelmente pensando nos milhares de germes a que eu estava me expondo naquela rua. Fiquei feliz porque minha velocidade foi maior do que a de muitos dos atletas que por ali treinavam.

Dia 3 - Novo ritmo (23/10/2010)

Tradicionalmente iniciei a corrida com meus calçados esportivos. Depois de 6km a já tradicional "banda iliotibial" acabou com a brincadeira. Baseando-me na experiência da última semana, tirei o tênis e corri 4km descalço. Depois de uma pausa de 10 minutos fiz mais 2km totalizando 6km no dia.


Admito que correr os 6km levou à irritações por atrito nos dedos do pé, como na primeira vez que corri, todavia, parece que me acostumei mais às pedras soltas no pavimento pois o problema demorou muito mais a aparecer. A dor da perna quase não foi sentida. O tempo do quilômetro ficou em 5 minutos o que, na minha opinião, está ótimo pois a velocidade reduzia muito de acordo com a quantidade de "pedrinhas" na pista.


Um fato interessante ocorreu enquanto estava descansando. Um senhor, que pratica corrida todos os dias e admiravelmente perdeu 50kg em 5 anos, sentou-se a meu lado e puxou conversa sobre o fato de eu estar correndo descalço. Expliquei a ele o meu problema na perna e as experiências que tinha feito até o momento. O senhor comentou que uma moça, formada em educação física também corria descalça na região como pesquisa para seu trabalho de conclusão de curso. Ele empolgou-se com a ideia de correr descalço e disse que ia experimentar. Alertei para que fosse com calma, assim como eu estava fazendo.

Dor (24 a 27/10/2010)

Bom, definitivamente exagerei na última corrida e passei os outros quatro dias com dores no calcanhar e na batata da perna. A dor no calcanhar na minha opinião veio em função de algumas pancadas que dei no solo. Ainda bem que tenho um bom tempo para me recuperar até o dia 4.

Dia 4 (16/10/2010)

Bolhas causadas pelo atrito nos pés
Bolhas causadas pelo atrito nos pés

 

Neste dia chuvoso fiz uma nova experiência. Inverti a ordem e corri primeiro descalço e depois com o tênis. Descalço foram 5km, desta vez em câmera lenta para não machucar o pé. Depois foram mais 7km de tênis.


O piso molhado aparentemente deixou o meu pé mais sensível ao "relevo" do asfalto e em alguns trechos as pedrinhas incomodaram muito. Não tive qualquer manifestação da banda iliotibial além de um leve incômodo. A foto anexa mostra os pontos de atrito em meu pé que ainda preciso corrigir, acredito que devem reduzir conforme a musculatura se desenvolva.

DICA: Evite correr descalço em piso molhado. A água amolece a pele e a torna mais suscetível à feridas.

Dia 5 (2/11/2010)

Após 3 dias desde o último treino, tornei a correr descalço. Foram 3km sem tênis e 5km com tênis. Como não dei ao pé tempo suficiente para recuperar-se desde o último treinamento, achei melhor controlar a velocidade e diminuir a distância. Fiz o percurso buscando uma pisada que evitasse as bolhas no dedo. O piso seco é realmente mais propício para corrida.

Os músculos do pé ficaram bastante doloridos o que significa que ainda estou exagerando na distância/velocidade descalço. Para os próximos treinos vou reduzir o ritmo até obter uma melhor adaptação do corpo.

Dia 6 (6/11/2010)

Como havia corrido de tênis no dia anterior, o trecho de corrida descalço foi reduzido a cerca de 600m sobre o concreto. Nenhuma dor, bolha ou lesão.

Dia 7 (11/11/2010)

Com calçado: 8700m

Descalço: 1450m em 8 minutos. Sem bolhas ou dores.

Dia 8 (13/11/2010)

Com calçado: 10000m

Descalço: 2000m em 13 minutos.

Dia 9 (14/11/2010)

Com calçado: 8000m

Descalço: 2000m em 12 minutos.

Dia 10 (15/11/2010)

Com calçado: 10000m. Nenhuma dor na banda iliotibial.

Descalço: 2000m em 12 minutos. As feridas nos dedos não aparecem mais.

Dia 11 (21/11/2010)

Com calçado: 10000m.

Descalço: 3000m em 17 minutos.


Nessa altura do campeonato posso dizer que a adoção de trechos curtos de corrida descalço no treino foi um sucesso. Os treinos com calçado poderiam ser mais longos porém estou me forçando a não elevar a carga até o final do mês para evitar "acidentes". Até lá, estou melhorando o tempo. Pretendo voltar a casa dos 4'30 antes de aumentar a distância. Desde que comecei a correr descalço, muita coisa mudou em meu estilo de corrida. As passadas menores (maior cadência) e a correção da posição da pisada resolveram de uma vez por todas o problema da banda iliotibial. Não sinto mais absolutamente nada.

A própria corrida descalço mudou ao longo deste período. No começo, tocava o chão com as pontas dos pés e levantava os pés a partir delas, uma possível causa para as bolhas por atrito nos dedos e dores musculares. Agora toco com a parte central-frontal do pé e apoio a planta inteira no solo antes de ergue-lo. Não sei se conseguiria ter feito isso desde o começo pois a musculatura do pé estava fraca e a postura, com o passar do tempo, foi se adaptando naturalmente.

A sensibilidade à pedras e objetos pequenos diminuiu muito conforme a pele do pé ficou mais resistente. Isso possibilitou o aumento da velocidade.

Conclusão após um mês de corrida descalço

Ao final deste primeiro mês correndo descalço percebi que a dor e as bolhas foram importantes para impor limites à distância e à velocidade enquanto o meu corpo se adaptava ao novo estilo. Se estivesse utilizando algum tipo de proteção física como calçados minimalistas poderia ter lesado de forma grave a estrutura óssea e muscular do pé. É possível correr descalço no asfalto da cidade, seja ele liso ou desgastado sem sentir dor, basta ter paciência e ir com calma.

Como recomendação aos iniciantes, sugiro correr pequenas distâncias de cada vez, mesmo que o corpo aparentemente suporte mais, como constatei nos relatos anteriores.

Dia 12 (24/11/2010)

Com calçado: 10000m.

Descalço: 1450m em 7 minutos.

Dia 13 (27/11/2010)

Com calçado: 12000m.

Descalço: 3000m em 17,5 minutos.

Dia 14 (30/11/2010)

Com calçado: 10000m

Descalço: 1450m em 8 minutos (piso molhado).

Dia 15 (07/12/2010)

Com calçado: 10000m

Descalço: 1450m em 7,5 minutos.

Dia 16 (08/12/2010)

Com calçado: 10000m

Descalço: 1450m em 7 minutos.

Dia 17 (10/12/2010)

Com calçado: 12000m

Descalço: 2000m em 11 minutos

Redução das bolhas, nenhuma ferida
Redução das bolhas, nenhuma ferida

 

Dia 18 (17/12/2010)

Com calçado: 12000m

Descalço: 1450m em 7 minutos

Dia 19 (24/12/2010)

Com calçado: 15000m

Descalço: 2000m em 11,3 minutos

Conclusão após 5 meses de corrida descalço (10/3/2011)

Continuei correndo descalço após cada treino de longa distância, em média, 10% da distância sobre a borracha. O terreno é sempre o mesmo, asfalto ou concreto de ruas no bairro. Não noto mais o aparecimento de bolhas ou qualquer outro tipo de lesão. Também não notei qualquer lesão decorrente do impacto sem amortecimento. Nunca me cortei com pedaços de vidro, pregos ou pedras embora tenha algumas vezes passado por cima deles.

Conclusão após um ano e dois meses de corrida descalço (12/12/2011)

Já se passou um ano desde que comecei a correr descalço. Ainda mantenho a minha rotina de treinos, correndo 10% da distância que fiz calçado (estimo 1400km com calçados e 140km descalço), só asfalto das ruas. Há cerca de um mês pisei em um objeto não identificado que se quebrou dentro do meu pé. Demorei um dia para conseguir retirar todos os fragmentos no pé mas o resultado ficou ótimo. Em 3 dias estava correndo descalço novamente.

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Comentários

Olá! Gostei muito do artigo. Ocorre que também sinto uma dor no joelho esquerdo, não sei se é o mesmo caso. No entanto pretendo fazer um teste correndo descalço, da forma descrita acima, ou seja: começando devagar e não passar de 10 por cento do que corro.

Acreditando no seu depoimento, até porque tem um conterrâneo meu que corre descalço, pretendo me ver livre dessa dor inconveniente no joelho e de quebra melhorar minha performace.

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Content in English

Hello! I really enjoyed the article. It happens that I also have pain in the left knee, I do not know if it's the same case. However I intend to do a test running barefoot in the way described above, ie: starting slowly and not exceeding 10 percent of what I run.

Believing in your testimony, even because there is a countryman of mine who runs barefoot, I intend to get rid of this inconvenient pain in the knee and to break my performance improves.